Engana-se quem responde que sim, e se engana na mesma razão
quem responde que não. Qualquer um que responda a essa pergunta em sua forma
simples, está errado.
Uma caneta não pode te deixar feliz, mas poder usá-la para
escrever pode te deixar bem animado – E há uma diferença fundamental nisso que
não é notada -, e não tê-la em certas ocasiões pode ser um infortúnio muito
grande. Então: Uma caneta traz felicidade?
O dinheiro é tão importante para nós, para nos proporcionar
situações, ocasiões, coisas, sensações e etc, quanto uma pessoa pode ser para
nos proporcionar sentimentos.
A pergunta mal formulada é a ruína de tudo, é base de toda a
incoerência, e só tende a nos trazer respostas obscuras, turvas, confusas, incongruentes
como a pergunta.
É, de certo, que o dinheiro pode trazer felicidade, tanto quanto pode não trazê-la - O caso é o que você faz com a caneta quando a
tem, como, e em quê, gasta sua tinta.
Mudando a pergunta: O dinheiro é o mais importante?
Não posso responder isto por você, mas... Se você responde
que o dinheiro traz felicidade, as pessoas tentem a achar que você pensa que
uma caneta é a coisa mais importante que existe no mundo. Entende? E você
também pode ligar uma coisa na outra e, inconscientemente, tratar dessa forma,
como se o dinheiro fosse o mais importante por poder trazer as coisas mais importantes até você.
- Tá. Então o dinheiro não é importante? – Ou – É importante?
– Você está maluco! Me dá todo seu dinheiro e vai ser feliz.
– Ou – Tá bom, tanta gente ai com dinheiro, e infeliz.
Quando as coisas, as
situações, as ocasiões, as sensações, e tudo o que o dinheiro pode dar são mais importantes que ele, então
nós não temos uma gana, e naturalmente o gastamos na mesma razão em que nos
poupamos de gastar, e deixamos de buscá-lo quando já temos o que queríamos (o
importante), e o trocamos facilmente pelas coisas que ele proporciona (não
necessariamente o desvalorizando de seu papel e sua importância em si, mas,
mesmo sem notar, deixando de dar importância a ele se comparar com a importância
que ele têm para outros). Fundamentalmente, quando o dinheiro não é mais
importante que as coisas que ele proporciona, nós buscamos o suficiente, apenas
o suficiente para o que desejamos, e
não por ele, não para tê-lo, mas às coisas.
Quando o dinheiro
é a felicidade e, quando essa ideia
existe dentro de si, enganosamente se torna mais importante que as coisas que
ele pode proporcionar (mesmo sem que você perceba), tê-lo é o
bastante na mesma razão em que não basta apenas tê-lo e sempre é preciso ter
mais dele. Essa cadeia de importância (muitas vezes inconsciente) nos faz trocar facilmente o que ele pode proporcionar (que menos importante que ele próprio) - como as ocasiões, as sensação, as coisas - por um pouco mais dele, ou a possibilidade de um pouco mais dele. Como trocar ocasiões em família, amigos, deixando de comprar algo necessário, visar um relacionamento lucrativo financeiramente, e etc).
Em outro campo comparativo, tão inconsciente quanto, é como uma pessoa: Quando ela é importante, as sensações que ela proporciona, e os
sentimentos que ela deserta em si, ficam ofuscados pela gana de tê-la. Então,
por vezes, nós nos enganamos, nós mentimos para nós mesmos, e nos achamos
felizes por tê-la ali, por estarmos com ela e, a todo custo, tentamos mantê-la. Não importa o quão bom, o bom, o
ruim, o muito ruim, o morno que seja essa relação com ela, quando o importante
é tê-la, ficamos aprisionados à ideia de tê-la ali, de não deixá-la, porque
tê-la ali é o que traz felicidade, e
não tê-la é igual a ser infeliz – Quando não passa de um “pode trazer felicidade”, uma possibilidade, e não se é necessariamente
infeliz sem ela.
Quando o sentimento
e as sensações que uma pessoa pode
proporcionar são as coisas mais importantes, nós as buscamos apenas o
suficiente para consegui-los, nada mais. E podemos facilmente descartar as pessoas quando elas não são satisfatórias,
ou deixar de buscá-las mais, ou a outras, quando estamos satisfeitos.
Uma pergunta mal formulada é necessariamente injusta para
com seu receptor – Porque eu vos pergunto de novo:
- O dinheiro traz felicidade?
- Não. Mas pode
trazer.
E toda vez que for fazer essa pergunta, ou respondê-la,
cuidado. Essa pergunta não é o que aparenta ser, então sua resposta também não
será.
- Coisa de Caráter, Alexandre Vieira.